É a cor do céu nas primeiras horas da manhã

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

RETRATOS AUSENTES






Cantadas,
Homens magoados,
Outros feridos,
Prantos nas docas,
Nos diques
Nos becos, nos bares...
Sofrendo por suas mulheres.
Gritando paixões, num charco
De tantos perdões.
Mastigando suas dores.
Histórias perdidas
Cerveja e bilhar.
Balcões,
Oficinas
Mormaços,
Neblinas.

Fiapos de sonhos
Em meninas...

Um rosto de porcelana
Não diz nada além...

Homens, mulheres,
Decepando o dorso da serra,
Erguendo a vida
Na fuligem,
Na friagem das suas crianças.

Uma, de amarelinha,
Outra come terra.

Quermesses, a graxa, o copo de vinho,
Arruaça, a fumaça enlaçando vidas
Nas margens das várzeas.
As lavadeiras que esperam seus homens
E num desbotado anil
Torcem cores e fazem varais.
E sonham vagares e tingem os cabelos
Cerzindo páginas e dores
E almas
Amedrontadas e rasgadas
Na ausência
Do afeto.


MARCIANO VASQUES


terça-feira, 26 de julho de 2011

CAMADAS NO CENTRO DA VIDA

—Rospo, precisa entrar em sintonia... com a vida.
—Deve  estar  brincando, Sapabela.
—Estou. Sou brincante, sou brincadeira, adoro brincos. Sempre estarei brincando...
—E hoje está mesmo, e linda. Adorei os seus brincos. Essa cor esmeralda é esmero da alma.

ROSPO NA CASA AZUL

A partir de hoje, 26 de Julho, todas as atualizações de Rospo, em CASA AZUL DA LITERATURA estarão simultaneamente aqui.
Marciano Vasques

COM OS SERAFINS DA POESIA

Com os SERAFINS da poesia

sábado, 4 de junho de 2011

REVISTA PALAVRA FIANDEIRA

Está no ar o primeiro número da nova revista 
PALAVRA FIANDEIRA
Para folhear e ler, aqui está o link:
acessa.me/palavra_fiandeira

domingo, 30 de janeiro de 2011

O SAPO ESTÁ FELIZ

— Sapabela! Alô!
— Oi, Rospo... Que alegria!
— Liguei para dizer que estou feliz, Sapa.
— Ligou só para isso? Só para dizer que está feliz?
— É...
— Pois então, feliz estou eu agora. Um amigo que tanto prezo feliz está, então lá vou eu também para o "Feliz"... Mas...
— "Lá vem o 'Mas' da Sapa" — Mas o quê Sapabela?
— Fale baixo, Rospo.
— Devo falar baixo? Eu não sei fazer isso quando feliz estou...
— Se você continuar anunciando a sua felicidade vai incomodar muitos sapos...
— É mesmo, Sapabela?
— Sim, muitos "amigos" não suportarão saber que você está feliz...
— Mas isso é um problema deles, Sapa...
— Sentirão incômodo, inveja, ciúmes... É difícil, para muitos, suportar a felicidade alheia. A felicidade do outro incomoda. Essa coisa tão terrível que é a felicidade do outro...
— Mas isso é um problema deles, Sapa...
— Tão incomodados ficarão que até a paz de espírito poderão perder... Passarão a ocupar as próprias mentes com a sua felicidade. Em vez de também serem felizes, perderão o precioso tempo da vida e gastarão suas energias mentais tentando aceitar o fato de que você simplesmente está feliz...
— Mas isso é um problema deles, Sapa...
— Tem razão, Rospo. Fale alto, leve aos céus a sua voz, diga com o tórax repleto de energia que você está feliz... Cultive a sua felicidade para que ela goste de você e se aloje em seu coração feito pássaro se aninhando...
— Vamos nos encontrar para um sorvete? Hoje é domingo...
— Vamos, Rospo, só irei pôr uma saia rosa que reservei para o domingo e a flor amarela nos cabelos... Quer dizer, na cabeça...
— Sapabela, agora sim a minha felicidade cresceu demais...
HISTÓRIAS DO ROSPO — 31
Marciano Vasques

As histórias do Rospo estão em 
CASA AZUL DA LITERATURA INFANTIL
http://casaazuldaliteraturainfantil.blogspot.com/

SAPO, FILÓSOFO, POETA...

— Rospo, por que tantos sapos se ocupam com o tema "Morte"?
— Não sei. Talvez para produzirem histórias de terror, de assombrações, essas narrativas que divertem e arrepiam...
— E você? Vive se ocupando com a morte?
— Não! Só com a vida.
— Sei. É um  filósofo...
— Não me considero, mas talvez esteja a imitar o filósofo autêntico: aquele que só pensa na vida.
— O poeta é irmão do filósofo...
— Por isso, Sapabela,  a poesia é para a vida, que a cada poema se renova.
— A cada conversa nossa, Rospo.

HISTÓRIAS DO ROSPO — 30
Marciano Vasques

SAPABELA PERGUNTA

Um sapo e sua amiga conversam à beira do lago.
— Rospo, já foi arrogante?
— Algumas vezes quis que os outros sapos apreciassem o meu conhecimento sobre algo.
— E isso não é bom?
— Nem todos querem saber de outros saberes...
— Entendo. Você quis dividir a felicidade...
— Para uns o conhecimento não é sinônimo de felicidade...
— Já foi preconceituoso?
— Já formei pré-conceito, já julguei, já me posicionei antes de conhecer a coisa.
— E hoje?
— Vou sempre em busca do conhecimento para só depois me posicionar
— Já se julgou superior por ter o conhecimento de algo?
— O verdadeiro conhecimento não torna alguém arrogante a ponto de subestimar os outros...Mas, quantas perguntas, Sapabela!
— Aquela flor me inspirou. Sabe o nome dela?
— Aquela? Narciso.

HISTÓRIAS DO ROSPO — 29
Marciano Vasques

PRECIOSA CONVERSA

Rospo está escrevendo um convite de lançamento de um novo livro, quando surge a sua amiga Sapabela.
— O que está fazendo, Rospo?
— Escrevendo em um convite.
— Posso ver?
— Sim.
— Rospo, você errou!
— Errei?
— Pôs:"Conto com  sua preciosa conversa", em vez de " preciosa presença".
Rospo ri feito um sapo.
— Ora, Sapabela, minha sapíssima, é mesmo "preciosa conversa", pois se o convidado não levar a conversa, a presença fica órfã.
HISTÓRIAS DO ROSPO — 28
Marciano Vasques

A VALORIZAÇÃO DO ARTISTA

Sapabela e Colibrã num passeio quando encontram um dentista:
— Você é a famosa Colibrã? Dê uma amostra do seu talento, fazendo uma coreografia,
— Só se o senhor extrair um dente agora.
— Não posso fazer isso.


Depois, encontram um piloto.
— É a minha bailarina preferida! Admiro muito o seu talento. Pode executar um passo de dança?
— Só se o senhor pilotar um avião agora...
— Não posso fazer isso.


As duas prosseguem o passeio.
— Não foi muito brusca com eles, Colibrã?
— Não, Sapabela. Precisam compreender que o artista não está sempre disponível para a satisfação geral.
— Lá vem o nosso poeta Rospo.
— Colibrã! Dê um giro. Quero vê-la bailando.
— Vai escrever um poema agora, Rospo?
HISTÓRIAS DO ROSPO — 27
Marciano Vasques

ROSPO E A ESPERTEZA

— Rospo, o que é para você um sapo esperto?
— É o sapo que aprecia HQ, adora ler livros, jornais, gibis, poemas...Também gosta de festas, teatro, cinema, e não perde uma boa música. E por uma boa conversa acende uma fogueira...
— Conversa?
— A conversa é irmã do cinema, da leitura, do livro...
— Então o sapo esperto aprecia as coisas boas da vida?
— E quando fica sabendo de uma injustiça imediatamente bota a boca no ar.
— Rospo, você mudou o conceito de esperteza! Para muitos, esperteza é trapacear, é vencer a qualquer custo, é enganar os outros, furar filas, querer ser o primeiro em tudo..
— Sapabela, você perguntou sobre o sapo esperto, não sobre o sapo idiota.
HISTÓRIAS DO ROSPO — 26

Marciano Vasques

ROSPO NO METRÔ

Inconformado com o fato de uma senhora sapa viajar ao lado de sua filha sem dizer uma palavra com a sapinha, Rospo bota a boca no ar.
— Minha senhora, chegamos. É a última estação.
— Eu sei, sapo! Eu vi.
— Mas não viu a sua própria indelicadeza, a sua própria estupidez, que geralmente é "Invisível" aos próprios olhos.
— Do que o senhor está falando? Por acaso me conhece?
— Conheci nesta viagem. Por que faz isso com o futuro?
— Você é maluco? Nem sei do que está falando...
— Não trocou uma palavra com a sua filha. Ficou ao lado dela em silêncio, como se ela fosse uma desconhecida...Por acaso não sabe que criança adora conversar? Quer que ela fique parecida com a senhora?
— Seu sapo atrevido! Se eu não conversei com a minha filha, o que o senhor tem a ver com isso?
— Tenho tudo a ver. A criança, o sapinho, é da sociedade, é de todos, é da comunidade dos sapos...Todos devemos cuidar dos pequenos. Não faça mais isso. Não desperdice a oportunidade de conversar com o futuro. Não crie uma geração acanhada, muda, insegura...
— Sapo, foi apenas uma viagem de metrô!
— Foi mais do que isso. Foi uma grande perda! A propósito, meu nome é Rospo.
— Tchau, seu Rospo, tchau...
— Tchau, Sapinha.
— Não fale com estranhos! Eu já lhe proibi!
— Mas, mãe...
— Silêncio!
HISTÓRIAS DO ROSPO — 25
Marciano Vasques

O FRIO CHEGOU

— Rospo, o frio chegou. Quero que fale dez coisas que tenham a ver com ele.
— Adora uma brincadeira, não é, Sapabela? Mas essa é fácil.
— Manda ver.
— Para os adultos, como eu, ora, vejamos...
— Vamos, Rospo...
— Vinho; música; poesia; livro; cinema; teatro; pão quente e bolo de cenoura; conversar; contar ou ouvir histórias de assombrações; ler jornal, começando pelas tiras de HQ...
— Rospo, tirando o vinho, tudo o que você falou o sapinho esperto também aprecia... Mas esqueceu de um...
— Qual?
— Namorar.
— Você não perde a mania de aperfeiçoar tudo, não é?
—- Quem é Sapabela, Sapabela é...
— Convencida...
— É brincadeira.
— Sei, adora uma brincadeira. Mas, falando em frio, que tal um sorvete?
— Sorvete?
— Desculpe, é a força do hábito, eu quis dizer...
— Um licor? Licor de cacau? de cereja?...
—"Eu havia pensado apenas em pipoca...!"
 
 
 
HISTÓRIAS DO ROSPO — 24
Marciano Vasques

A SAPA MAIS FEIA DO MUNDO

Passa por eles uma sapa e a Sapabela comenta:
- Veja, Rospo, que sapa linda! Não conhecia essa jovem. É realmente linda!
- É feia!
- Está louco, Rospo? Como pode dizer isso?
- É mais do que feia, é horrível, aliás, nunca vi tanta feiúra.
- Acho melhor explicar isso, meu amigo.
- Ora, Sapabela, a beleza exterior, a beleza do rosto de nada vale...
- Beleza é fundamental, Rospo...
- Deixe-me terminar.
- Desculpe. Pode continuar.
- A beleza da aparência não tem valor se o interior é feio. Vou dizer porque ela é feia.
- Diga.
- Ela é racista, preconceituosa, fofoqueira, e desvaloriza os amigos, quase sempre desmoraliza os colegas, além de ser invejosa.
- Tudo isso?
- Pois é.
- Tem razão, amigo, ela é feia, muito feia. Mas como sabe tanto sobre ela?
- Apenas observo, finjo que não ouço...
HISTÓRIAS DO ROSPO — 23
Marciano Vasques

AS JOIAS INVISÍVEIS

Rospo e Sapabela conversam quando passa por eles uma sapa repleta de joias caras. Brincos, anéis, colares, broches  e pulseiras.
- É tudo tão brilhante, tão colorido e tão valioso! Essa sapa está muito enfeitada.
- É bonito realmente,  e eu gosto de ver, Sapabela. Afinal são as joias visíveis, aquelas que têm preço no mercado.
- Joias visíveis? Por acaso existem joias invisíveis?
- São as que não podem ser penduradas no pescoço. Elas não têm preço.
- Então são muito valiosas.
- Um poema que você leu e guardou consigo, uma história que contou para um sapinho, um abraço, um beijo, um olhar amoroso, um sorriso...um aperto de mão sincero, uma conversa, uma canção de ninar, um gesto de amor...
- Rospo, não sabia que tinha tantas joias dentro de mim.
- Eu sempre soube.
- Consegue ver as joias invisíveis?
- Todos conseguem. É só limpar o olhar no riacho da poesia quando ele estiver embaçado pela rotina.
 
HISTÓRIAS DO ROSPO — 22
Marciano Vasques

O SAPO ALIENADO

No sábado, os verdadeiros amigos procuram se encontrar, e adivinhe para quem o Rospo está telefonando?
- Sapabela, tem sorvete hoje?
Logo os dois estão caminhando numa calçada.
- Rospo, tem sapo que aprecia o lado bom da vida, mas esquece os que sofrem, os oprimidos e os desamparados.
- São sapos alineados. O sapo que só pensa no lado bom da vida, mas não denuncia , não dá o seu apoio para que os desfavorecidos, os explorados possam modificar a vida, são sapos tristes.
- Sapos alineados são sapos tristes?
- Sim, minha cara sapa.
- Antes eu tinha vergonha e receio de apreciar o lado bom da vida. Pensava que fosse coisa apenas de burgueses.
- Que nada, Sapa! O lado bom da vida está na beleza da flor, na arte, no conforto. Você deve se orgulhar de apreciar tudo isso, e também, mesmo que apenas com palavras, contribuir com os que ainda não tiveram acesso a esses bens por motivo de opressão.

MARCIANO VASQUES
HISTÓRIAS DO ROSPO — 21

domingo, 19 de dezembro de 2010

UMA AVENTURA NA CASA AZUL

Livro de Marciano Vasques

O PALÁCIO DOS EUCALIPTOS

Livro do escritor Marciano Vasques

O BLOGUEIRO - 32

O BLOGUEIRO - 31

O BLOGUEIRO - 29

O BLOGUEIRO - 30

O BLOGUEIRO - 28

O BLOGUEIRO - 27

O BLOGUEIRO - 26

O BLOGUEIRO - 25

O BLOGUEIRO - 24

O BLOGUEIRO - 23

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O SAPO E A CURIOSIDADE INFANTIL

Rospo está arrumando a sua biblioteca particular quando chega a Sapabela.
- Tem bastante livros, Rospo. Parabéns!
- Estou organizando. Como você sabe, a criançada vive aqui. Sobrinhos, filhos dos amigos...
- Bom que a sua biblioteca seja um lugar atraente para os pequenos. O que está fazendo?
- Escrevendo um pequeno cartaz: PROIBIDO PARA CRIANÇA.
- Mas esses livros são infantis.
- Por isso mesmo.
- Explique.
- Eu quero que eles sejam lidos pela garotada.
- Mas pôs que é PROIBIDO.
- Parece que você não conhece a curiosidade das crianças.
- É verdade, Rospo. Se você diz que é proibido para as crianças, isso é o suficiente para despertar a curiosidade delas.
- Exatamente. Basta dizer que é proibido, e já garantiu que elas tentarão ler de todo jeito. 
MARCIANO VASQUES  
Histórias do Rospo - 20          

ANORITA E A RÃ DO PROVÉRBIO

- " A rã que está no fundo do poço pensa que o céu é do tamanho da boca do poço ".
- Que bonito, Anorita! É um provérbio antigo, não é?
- Muito antigo, Sapabela. E muito sábio, também.
- Sim, devemos sempre tê-lo em mente quando a situação estiver difícil. Às vezes, as circunstâncias nos deixam em apuros, e como não encontramos a saída, nos sentimos como ela...
- Ela, quem?
- A rã do provérbio.
- Verdade. Então é sempre bom lembrar da imensidão do céu, muito mais amplo do que a "boca do poço".


MARCIANO VASQUES
Histórias do Rospo - 19

O SAPO QUE LIA MUITO

- Sou um grande leitor, Anorita.
- Sei disso, Rospo. A Sapabela me contou.
- Li muitos livros em minha vida.
- Isso é ótimo.
- Conforme dizia Machado de Assis...
E Rospo prossegue:
- Segundo Nietzsche...E como disse Shakespeare...De acordo com Sartre...´Segundo Guimarães Rosa...Concordo com Gabriel Garcia Márquez...Assim disse Dostoiévski...Como costumava falar Jorge Amado...Segundo as palavras de Eduardo Galeano...
- Rospo! Espere um pouco!
- O que aconteceu, Sapabela?
- Não sou a Sapabela! Sou a Anorita. E quero dizer uma coisa: Ler é bom, mas você ficou o passeio todo citando os autores que leu...

- Isso não é bom? 
- É bom, mas, é bom também de vez em quando pensar com a própria cabeça.

MARCIANO VASQUES  Histórias do Rospo -18

A PROFESSORA ENGESSADA

Entrou correndo, em alta velocidade, atirou longe a mochila e foi logo contando a novidade, toda ofegante.
- Tia Sapabela! A minha professora está com gesso.
- No braço ou na perna, Amélia?
- Nos braços, nas pernas...
- Sua professora está toda engessada?
-" Pobre professora. deve ter sofrido um acidente. Amanhã irei visitá-la" - Pensou a Sapabela, enquanto a agitada sobrinha já se punha à mesa para fazer a lição de casa.
- Muita lição, Amélia? Não quer primeiro lanchar?



- Não, tia, prefiro fazer a lição. Veja, ela mandou tudo isso de cópia, mais de 10 folhas do livro, e também fazer numerais até 1000, três vezes...
No dia seguinte, lá está a Sapabela com a professora.
- É imaginação da sua sobrinha. Aproveito para dizer que o meu método de ensino é o tradicional. Não acredito nessa história de Construtivismo... O meu planejamento é sempre o mesmo, a cada ano. Eu não mudo...
- Mas mandou muitas páginas de cópia! Como vai sobrar tempo para a imaginação? É estranho que a minha Amélia tenha falado do gesso.
- Certamente é uma visão que ela teve. Sabe como são as crianças de hoje, cismam de pensar...
- "Uma visão...Sim, uma visão do futuro, diante do passado...", meditou a Sapabela.
Em casa, diante da pequena sobrinha:
- Sim, Amélia, você estava certa. A sua professora está mesmo engessada.


ARGUMENTO: Marciano Vasques
ARTE: Daniela Alves Vasques

HISTÓRIAS DO ROSPO -17

FELIZ ROSPO, FELIZ SAPABELA

Tudo pronto para a grande virada. Quase meia-noite e na casa do Rospo só alegria. A ceia está montada e o reveillon vai começar.


- Vamos cantar gente! Daqui a pouco é um novo ano.


- Tem certeza?


- Não faça isso Sapabela...


- Aprendi com você, amigo.


- Está bem. Qual é o problema? Daqui a pouco por acaso não será um novo ano?


- Depende.


- Sapa, a festa está animada. O que significa esse “depende”?


- Depende de você, Rospo. Se você quiser verdadeiramente, daqui a pouco será mesmo um ano novo.


- O Planeta completou um giro em torno do Sol, portanto entraremos num novo ano.


- Acho que você ainda não entendeu. O ano novo está dentro da gente. Quem muda é você, Rospo. Se você não mudar, tudo não passará de apenas uma mudança de calendário. Para o ano ser de fato um novo tempo, as mudanças estão dentro de você.


- Mas eu posso estar satisfeito comigo mesmo.


- Ótimo. Então você pode ser imutável.


- Para que mudar se estou satisfeito?


- Você fez uma revisão nos seus conceitos? Por acaso deu um trato nas velhas idéias? Ficou mesmo completamente satisfeito com as suas contribuições durante o ano?


- Não deu tempo pra pensar muito.Você sabe, Bela, não sobra tempo para nada.


- Talvez o tempo não esteja sendo bem utilizado.


- Sapa, não se esqueça: estamos numa comemoração.


- Quem comemora também pensa...


- Está bem, você venceu....


- Eu nem sabia que era uma competição, Rospo!


- É o modo de falar. Eu quis dizer que você tem razão. Se eu não melhorar, o ano novo será apenas uma ilusão.


- Isso mesmo, Rospo. Cada um de nós tem o ano novo dentro da gente. Não desperdice a chance de mudar o seu calendário interior...


- É verdade, somos os responsáveis pela chegada de um novo tempo...


Um dos convidados grita: - Pessoal, quase meia-noite!


A Sapabela e o amigo Rospo se abraçam.


- Feliz Rospo!


- Feliz Sapabela!

ARGUMENTO: Marciano Vasques
ARTE: Daniela Alves Vasques
Histórias do Rospo - 16

O SAPO E O ANO NOVO

- 31 de Dezembro é um dia como outro qualquer.
- Claro que não!
- Ora, Rospo...
- Sapabela, algo extraordinário acontece...
- Sim?
- O planeta completou a sua translação, é um novo ciclo, uma nova volta, e recomeça tudo.
- É apenas simbólico. Quem garante que o 31 de Dezembro é o ponto de chegada da translação? Para mim, a cada dia temos um novo ano.
- Sapabela, a humanidade ainda não evoluiu tanto, nem os sapos. Um símbolo nos satisfaz. Calendário é apenas referência. Se quiser, pode me desejar Feliz Ano Novo diariamente.
- Pensando bem, os símbolos são maravilhosos. Deixe-me abraçá-lo, Rospo.
- Mas ainda não é Meia Noite!
- E precisa?


MARCIANO VASQUES  
Histórias do Rospo - 15

A DIFICULDADE DO SAPO

- É mais fácil...Uma dissertação de mestrado.
- Continue, Rospo...
- É mais fácil... Uma tese de doutorado...
- Papo meio esquisito...
- É mais fácil aprender álgebra...
- Nossa! O que será que o aflige?
- Mais fácil aprender Alemão... Japonês...
- Rospo, você deve estar com uma dificuldade imensa...
- Sapabela, acha que ainda existe espaço para a timidez no mundo atual, tão cibernético, tão tecnológico, com constelações de blogs...?
- Rospo, a timidez tem algo a ver com o ser humano...
- E com os sapos...
- Sim, claro. Mas, por que a questão?
- Nada, tchau, preciso ir, tenho um compromisso.
 
Sapabela fica sozinha a pensar: "O que será que é tão difícil para ele?"
Enquanto isso, sob uma árvore, o sapo, a cismar:
- "Ela é tão linda!"


MARCIANO VASQUES
Histórias do Rospo - 14

O TREINAMENTO DA JOELMINHA

- Tire o pé do sofá! Não urine na tampa do vaso, deixou essas migalhas de pão na pia só para a empregada aqui limpar? Abaixe a tevê! Fale mais baixo. Você está gordo! Pare! Que sujeira! Para pôr arroz no prato, sujou todo o fogão. Não quero saber! Estou com dor de cabeça! Não grite! Eu não estou gritando, é você quem está! Que chulé! Que bafo de cerveja! Você só pensa em comer e dormir... Homem é todo folgado. Que saco! Futebol novamente!

- Joelminha, como vai?
- Olá, Sapabela!
-O que é isso, menina, ficou maluca? Está falando sozinha.

- Falando sozinha?
- É.
- Pois é, estou treinando.
- Treinando? Para que coisa está treinando?
- Para o casamento.
- Você pretende se casar?
- Por enquanto ainda não. Sou muito jovem, prefiro viver primeiro.

- Joelminha, posso falar uma coisa?
- Claro, Sapabela.

- Realismo exagerado é chato.


MARCIANO VASQUES
Histórias do Rospo - 13

SAPABELA MAL HUMORADA

Num desses encontros casuais, Rospo encontra a velha amiga Sapabela,  saltitante a comemorar, fazendo um enorme estardalhaço.
- Sapa, o que está acontecendo?
- Consegui, Rospo, consegui!
- Querida, estou surpreso com a sua euforia. Mas, por favor, conte-me o motivo de tanto entusiasmo.
- Consegui! Agora faço parte de um grupo de amigas.
- Parabéns! E que  grupo é esse?
- São as três que vivem a se lamentar.
- Aquelas mal humoradas? E qual é a vantagem de entrar num grupo assim?
- Acontece que eu queria fazer parte do grupo, mas não conseguia, por estar sempre feliz, alegre e contente. A minha felicidade incomodava, causava distúrbios no grupo.
- Sim, o mau humor delas é famoso.
- Então, eu me tornei mal humorada, rabugenta, chata, e assim elas me aceitaram no grupo. Por isso estou comemorando com tanta alegria. Viva o meu mau humor!
- Impressionante!
- Nada como fazer parte de um grupo. Agora sou uma mal humorada. Viva! Viva! Viva!
- "Acho que bebi demais no Natal".


MARCIANO VASQUES
Histórias do Rospo - 12

FELIZ OLHAR NOVO !

- Feliz Olhar Novo, Sapabela!
- Rospo, obrigado, mas, não seria Feliz Ano Ano?
- É a mesma coisa, Sapa.
- É?
- Sim. Se você está com o olhar cansado, embaçado pelas agruras do cotidiano, e não consegue mais ver a poesia do mundo nas coisas simples que são, você precisa renovar o olhar, precisa modificá-lo, só assim o ano será realmente novo.
- E como anda o brejo, Rospo?
- Estamos vivendo, amiga. Quis ir até São Paulo, mas não pude.
- Por que?
- Não tenho submarino.
- Gostei da piada.
- Bem, tenho um compromisso, tchau!
- Tchau!
- E não se esqueça, cuide do seu olhar.
- Não me esquecerei. Bem, tenho muitos dias pela frente.
- Lembre-se. Cada dia é uma nova chance.
- É, não posso bobear.
- Nem ficar parada, pois ficar parado é caminhar para trás.
- Rospo...
- Sim?
- Feliz Novo Olhar para você também.


MARCIANO VASQUES
Histórias do Rospo 2010 -11